Quero dar algumas pistas sobre o Solar dos Albuquerques em Mangualde. Para mim este está ligado a António da Costa Faro e António Mendes Coutinho, e até inclino-me mais para António da Costa Faro, dado este ter vivido em São Cosmado, dado que recolhi ao ler a análise do arquiteto Sérgio Fernandez sobre Viseu na revista Monumentos, n° 6, sobre esta cidade.
Penso que a imagem da sua fachada principal e até o seu “escadório”, se ligam à imagem da igreja “assolarada” que é o caso da igreja da Misericórdia de Viseu, por um lado e esta remete para a igreja da nossa sra dos remédios em Lamego por outro. São edificações de meados, finais do século XVIII.
Outro dado é a igreja e escadório da sra do Castelo em Mangualde, que se liga ao santuário do Bom Jesus do Monte em Braga; a imagem da sua fachada liga-se ao Bom Jesus de Braga e não à sra dos remédios em Lamego cuja fachada lembra a Igreja da Misericórdia em Viseu.
Outro dado que desejo abordar é a questão da arqueologia. Mangualde tem ruínas romanas importantes, para mim o dado essencial é que a citânia da Raposeira foi de alguma forma um entreposto, algo de que não tenho conhecimento da sua existência noutro local do nosso país. Outro dado e aí já não sei que vestígios de outras épocas foram encontrados nas escavações arqueológicas, nomeadamente islâmicos, prende-se precisamente com o monte da sra do castelo, onde poderá ter existido um castro primitivo e um castelo de alguma forma ligado a Zurara, dado Mangualde já ter tido o nome de Azurara da Beira.
Voltando à questão da arqueologia e tendo em conta que o império romano do ocidente terá terminado no século IV e a presença arábe na península e sobretudo nesta parte do território se situe entre 711 e mais ou menos o ano mil, não faz muito sentido aprovar um projeto condicionando-o à arqueologia, ainda que neste caso a minha mãe, proprietária do Solar dos Albuquerques não se importasse de facilitar a escavação no local onde se irá realizar uma piscina sobreelevada, com 1,2m de altura, demolindo parcialmente um anexo que serviu como garagem e que não se relaciona com a ideia de solar, que dado ter uma cobertura em telha nele poderem ser realizados estes trabalhos durante o inverno; e até poder-se redesenhar o espaço exterior onde se encontra que funciona como um jardim e pátio caso fosem encontradas memórias importantes.
É precisamente por a evolução da forma urbana de Mangualde se ligar a dois eixos principais, um este-oeste, estrada nacional 234 e outro Norte-Sul, a antiga estrada para a estação dos caminhos de ferro, que funcionam de facto como um Cardo e um Decumanus, mas que são de uma época completamente distinta da citânia da Raposeira.
Os solares como o onde hoje se encontra a C.M.M. e até a própria casa da Azurara bem como o solar dos Albuquerques, são realizações que apontam para finais do século XVIII e XIX bem como as estradas referidas e até a própria praça onde estes se encontram que funcionava em losango com um desenho urbano diferente do atual.
A própria citânia da Raposeira não tem um traçado hipodâmico claro, e pode ter funcionado como contraponto ao castelo arábe, no espírito de alcáçova e medina.
Outro dado que queria abordar é a questão das “situações de cruzamento” na origem da formação de povoados e cidades, ideia clara veiculada pelo arquiteto Fernando Távora.
Assim se por um lado a citânia da raposeira e o monte da sra do castelo poderão ter estado ligados, criando alguma dinâmica urbana; a forma da cidade de Mangualde está claramente ligada ao cruzamento da estrada nacional 234 com a estrada para a estação dos caminhos de ferro.
Seria interessante analizar também o largo Pedro Álvares Cabral que está relacionado com o palácio dos Condes da Anadia e até os referidos arquitetos Faro e Coutinho poderão ter tido alguma intervenção neste edifício importante. Desejo assinalar o contraponto entre o largo Pedro Álvares Cabral- Palácio dos Condes da Anadia e o largo dr. Couto e o solar onde se encontra a C.M.M., mostrando o poder das famílias proprietárias e lembrando que o Solar dos Albuquerques foi também a casa dos Republicanos, daí a retirada do seu brasão, e a posterior aquisição deste solar por parte do meu trisavô Albano Augusto Duarte em 1935.
Sem querer alongar mais o meu raciocínio, ficam aqui estas pistas sobre questões de urbanidade.
